Uma Nova Revolução Para o Jornalismo

Audaciosa e anticonvencional, The Newsroom explora a redação de um noticiário televisivo em série questionadora criada por Aaron Sorkin

Não é o melhor país do mundo, professor. É a minha resposta. (…) Ótimo. Sharon, o NEA é um perdedor. Desconta 1 centavo do nosso salário e te bate com isso sempre que quer. Não custa grana, custa votos. Custa tempo de TV e polegadas de jornal. Sabe porque o povo não gosta de liberais? Porque perdem. Se os liberais são tão espertos, porque diabos sempre perdem? E com cara séria dirá aos alunos que a América é uma pátria tão maravilhosa que somos os únicos no mundo a ter liberdade? Canadá tem liberdade. Japão tem liberdade. O Reino Unido, França, Itália, Alemanha, Espanha, Austrália, Bélgica tem liberdade! De 207 estados soberanos do mundo, uns 180 têm liberdade. E é, garota da fraternidade, só no caso de, acidentalmente, um dia vagar pelas urnas, uma das coisas que deveria saber é que não há evidência que apoie a afirmação de que somos o melhor país do mundo. Somos o 17º em alfabetização, 27º em matemática, 22º em ciência, 49º em expectativa de vida, 178º em mortalidade infantil, 3º em média de renda familiar, 4º em trabalho forçado e 4º em exportação. Lideramos o mundo em apenas 3 categorias: número de cidadãos per capita na prisão, de adultos que creem que anjos são reais e gastos com defesa – gastamos mais do que 26 países juntos, 25 dos quais são aliados. Nada disso é culpa de universitários de 20 anos, mas, ainda assim, vocês são, sem dúvida, membros do pior período de todas as gerações de todos os tempos. Quando me pergunta o que nos torna o melhor país do mundo, não sei que porra que você está falando. Parque Yosemite?

Certeza que costumava ser. Nos levantamos para o que era certo. Lutamos por razões morais. Passamos leis, derrubamos leis por razões morais. Tivemos guerra contra a pobreza, não contra os pobres. Nos sacrificamos. Cuidamos dos nossos vizinhos. Pusemos o dinheiro onde a boca estava e nunca batemos no peito. Construímos ótimas coisas grandes, fizemos impiedosos avanços tecnológicos, exploramos o universo, curamos doenças, cultivamos os maiores artistas do mundo e a maior economia mundial. Alcançamos as estrelas, agimos como homens. Queríamos inteligência – não a menosprezamos, não nos fez sentir inferiores. Não nos identificamos por quem votamos nas últimas eleições e nós… Não nos assustamos facilmente. Somos capazes de ser todas essas coisas e fizemos todas essas coisas porque somos informados. Por grandes homens, que eram reverenciados. O primeiro passo para resolver um problema é reconhecer que ele existe. A América não é mais o melhor país do mundo.

O elenco principal de ‘The Newsroom’: o fazer do jornalismo é explorado de maneira inteligente e ousada na série, criada pelo mesmo roteirista de ‘A Rede Social’ (Divulgação)

Essa fala marca a introdução do primeiro episódio da nova série da HBO The Newsroom, que estreia no Brasil no próximo dia 05 de agosto. Questionando o âncora Will McAvoy (Jeff Daniels) e outros dois debatedores, uma aluna pergunta se eles saberiam dizer porque a América é o melhor país do mundo.

Inflamado e cansado da baboseira que os outros convidados falaram, e pressionado pelo mediador, McAvoy agressivamente parte para a fala brilhante que foi reescrita acima. E, assim, tem início a uma marca que vai constantemente fazer parte dos episódios do seriado: a sagacidade dos diálogos e o questionamento das ações e opiniões.

Inteligente, audacioso, divertido e diferente de tudo que estamos acostumados a ver na televisão, The Newsroom, criado por Aaron Sorkin (a mente por trás do roteiro de A Rede Social), já ganha destaque por justamente criticar a indústria do entretenimento e da produção de notícias com argumentos pesados e tentar despertar o senso crítico no espectador.

Tendo como principal cenário a redação do News Night, um jornal televisivo exibido no horário nobre, e ambientada entre 2010 e 2011, o questionamento inicial leva Will a apontar uma série de aspectos que mostram o quão a sociedade norte-americana está:

a)      Desestruturada em termos de entretenimento e do que realmente importa para ser noticiado;

b)      Fraca na formulação de opiniões, refletindo o quão vago pode ser a transmissão de informações pelos veículos de comunicação;

c)       Que de nada adianta estarmos conectados 24 horas por dia se não conseguimos processar uma simples informação.

Os Três Mosqueteiros: Charlie, Mackenzie e Will entram em um embate para mostrar como informar direito é mais importante do que conquistar audiência (Divulgação)

Depois desse constrangedor momento, Will é afastado temporariamente da cadeira de apresentador e, quando volta, se depara com uma mudança na emissora: parte da sua equipe vai para um jornal noturno e uma produtora chamada Mackenzie MacHale (Emily Mortimer) é contratada por Charlie Skinner (Sam Waterston), uma espécie de responsável pela programação jornalística do fictício canal ACN, para dar um gás no News Night, noticiário que ele apresenta há vários anos.

O problema, é que Mackenzie e Will estavam juntos anos atrás, e ele odeia ela; também Will, por mais que seja um jornalista inteligente e dono de fantásticos argumentos e de uma percepção crítica e questionadora refinada, não está pronto para alterações tão radicais na forma como a produtora visualiza o novo programa.

É uma mudança radical – e é nesse radicalismo que o seriado se baseia para construir o seu núcleo principal de personagens e as ações que movem o programa. A redação do programa possui típicos bem específicos: o nerd indiano Neal Sampat (Dev Patel); a jovem estagiária com problemas de relacionamento e uma eficiência ímpar, Maggie Jordan (Alison Pill); o assistente de Mackenzie, Jim Harper (John Gallagher Jr.), profissionalmente bem sucedido, mas com uma ou outra dificuldade pessoal; Don Keefer (Thomas Sadoski), namorado de Maggie e uma pedra no sapato de alguns personagens; e Sloan Sabbith (Olivia Munn), uma inteligente e surpreendente crítica econômica, jovem, bonita e solitária.

Reunindo essa gama de personagens um tanto diferentes, e que se esforçam para sair do clichê, The Newsroom vai caindo no gosto do espectador a cada episódio ao justamente explorar as qualidades e ir construindo esse lado que Sorkin tanto defende em cada episódio. Hoje, a maioria das pessoas que buscam o entretenimento televisivo ou cinematográfico exige uma inteligência e ousadia que a maioria dos produtos oferecidos não traz. A Rede Social mostrou que pode haver uma mudança nesse aspecto: o filme dirigido por David Fincher era acelerado, inteligente, nervoso, intenso e realista.

Sloan e Will nas coberturas da eleição de 2010: crítica política, social e econômica permeiam todos os momentos da série, que começa a ser exibida no Brasil no dia 05 de agosto pela HBO (Divulgação)

The Newsroom possui todas essas qualidades, e os créditos vão para o roteirista, que explora o mundo do jornalismo com sagacidade, guiando para lados anticonvencionais a história e os personagens, além de utilizar notícias e casos reais para construir a ação e argumentos de seus jovens repórteres.

Por exemplo, no episódio de estreia, a equipe da redação se vê diante de um acidente com uma plataforma de petróleo no Golfo do México. Já querendo apresentar a nova cara do programa, Mackenzie comanda os jornalistas a buscarem fontes alternativas (mas com alta credibilidade) e desenvolverem a melhor forma de argumentar e contra argumentar o assunto em pauta.

No segundo episódio, ela apresenta novas regras para fazer o novo programa, que são as seguintes:

1)      Esta é a informação que precisamos?

2)      Esta é a melhor forma possível de argumento?

3)      Esta é uma história com contexto histórico?

Ainda nesse episódio, ela faz um pequeno discurso bem motivador a respeito da mudança na produção:

Sim, nós fodemos em um grande assunto, mas o erro foi nosso. O seu foi medo, por precisar ser amado por estranhos e não pelo programa. Seja o líder, Will. Seja o centro moral desse programa. Seja a integridade. Hoje é sexta. Até segunda eu quero saber se está dentro ou fora.

Os bastidores da informação é explorado de forma brilhante e crítica nesta nova produção da HBO (Divulgação)

Assim, The Newsroom se destaca por mostrar uma nova faceta da profissão ao criticar os excessos, as bobagens, a relevância dada a alguns assuntos e a falta da busca pelo que traz credibilidade e é capaz de construir a percepção crítica da sociedade.

Por exemplo, no quarto episódio da série, Will está numa missão platônica para civilizar a sociedade. Em uma série de desastrosos encontros românticos, ele não entende o porquê a vida de celebridades vira capa de revista – até que ele próprio se vê nessa situação numa série de armações para derrubar seu nome e credibilidade depois de uma série de críticas realizadas contra o Tea Party (um movimento social e político populista, conservador e de ultradireita, surgido nos Estados Unidos em 2009 através de uma série de protestos coordenados em nível local e nacional) no brilhante terceiro episódio.

O seriado também busca mostrar o conflito entre o que traz audiência – que é o que normalmente motiva a produção de um programa ou jornal – e o que realmente informa, além de discutir a maneira como informar – os pontos apresentados por Mackenzie mostram justamente o modo como deve ser construída o senso crítico de algo.

O autor Bernardo Kucinski comentou em seu livro A Síndrome da Antena Parabólica que os meios de comunicação substituíram há um bom tempo as praças públicas na definição do espaço coletivo da política no mundo contemporâneo. Em função do alto índice de analfabetismo e baixo poder aquisitivo, a percepção popular da política e da sociedade provém principalmente dos meios eletrônicos de comunicação (como o rádio e a televisão) e, em menor escala, da leitura de jornais e revistas.

Com base nesse argumento, vemos que Sorkin quer mostrar a possibilidade da aliança entre entretenimento, informação e inteligência: dar a capa de um portal de notícias para o que uma atriz qualquer fez ou deixou de fazer não vai mudar a crise de alimentos nos campos de refugiados no Sudão, certo?

Trazendo um novo gás para a profissão do jornalista e um fôlego de renovação para a televisão e a produção de conteúdo informativo, The Newsroom empolga quem quer ser jornalista e aqueles que estudam para isso, mas apresenta os perrengues da profissão, os altos e baixos do dia-a-dia e bate na tecla de que o mais, o além, a fuga do lugar comum é a maneira correta para construir o senso crítico da sociedade.

Mais informações você obtém no site brasileiro da HBO ou no site oficial do programa.